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postado por Hellz. em 17 novembro 2015

Na fila do psiquiatra


Acordar cedo, dar seu nome na recepção e sentar numa cadeira acolchoada e velha por aproximadamente 5 horas.

5 horas de espera na fila do psiquiatra.

Apresentei-me naquela manhã fria de julho numa clínica qualquer, onde esperava que um médico (de qualificação específica) me receitasse pílulas coloridas da felicidade junto com pílulas de formatos variados pra acabar com a minha dor. Mas... a espera de cinco horas mata os pés, o intelecto, a pouca paciência. O que se fazer em cinco horas? Revistas são folheadas de trás pra frente, livros começam a cansar os olhos e até o café parece amargo depois do terceiro copo. 5 horas inúteis, 5 horas intermináveis. Dispus-me então a analisar os colegas de fila, os julgados loucos, assim como eu, que precisavam esperar a mesma quantidade de tempo – quem sabe mais -  por uma receita azul preenchida e carimbada. Uma receita que prometia, quimicamente, mudar vidas.

Pra começo, decidi fazer amizade com uma mãe magra, quase que empenada como uma porta velha, de nariz protuberante e olhos que pareciam não fechar em descanso há séculos. Ao seu lado, um menino tão curvado quanto (mas que não atingiu a curvatura “completa” da sua mãe devido a pouca idade) e com uma feição tão angelical que, dentro de um julgamento superficial e ridículo, nunca seria tido como o paciente da vez. Como se já quisesse ensaiar o que dizer ao psiquiatra no momento de consulta, a mãe empenada como uma porta despeja sobre mim todo o histórico do garotinho sem que eu faça muito esforço de simpatia ou precise demonstrar ser alguém de confiança. Escuto pacientemente todas as incontáveis crises que o seu filho teve, desde quebrar todos os móveis da casa aos berros a até quase agredir fisicamente sua mãe. Mas ora, um garoto tão bonzinho que pede permissão até pra se afastar da mãe alguns metros? Vai entender...

Decidi partir pra um segundo objeto pessoal de estudo: Um homem esquelético, com roupas muito amassadas e malcheirosas (fato que, na verdade, tornava-se um padrão para os colegas de fila). Ele tentava ser muito simpático, mostrar-se muito entendido sobre qualquer assunto, mas um lampejo de loucura nunca abandonava seus olhos, tornando todo e qualquer contato um tanto quanto assustador. Revelou sem muita demora (tal como a mãe empenada), a sua dependência incontrolável com drogas, seus surtos psicóticos quando sem elas e, notavelmente, apresentava um tique muito incômodo de ter de tocar-me a todo instante, como se encostar sua pele em qualquer lugar da minha pudesse reenergizar a loucura do olhar do moço. Afastei-me pra que o incômodo cessasse e encontrei alento, enfim, numa cadeira de plástico próxima a uma senhorinha que poderia até ser até a minha avó. 

A vózinha, por sua vez, não despejava problemas. Com real satisfação, decidiu conversar sobre o calor demasiado, a dificuldade do dia-a-dia e elogiar o quanto eu era bonita. De fato, ela poderia mesmo ser a avó que nunca tive, tendo assim, ao lado da senhorinha rosada, alento e proteção. Desejei que nossas cadeiras fossem teletransportadas juntas até uma casa de campo com vista para um jardim encantado e que não estivéssemos numa fila tão indesejada, cheia de testemunhas oculares às nossas confissões. Na casa de campo, poderia até ser a vez de contar meus próprios problemas. Entretanto antes de que eu assustasse a velhinha simpática, fui afastada de meus devaneios: Chegara a minha vez de conhecer em pessoa o motivo pelo qual estava na fila há tanto tempo.

Uma espera de 5 horas que renderam 5 minutos dentro do consultório de um médico careca e de aparência ansiosa:

- O que você sente?
- Tremores, sensação de desmaio, formigamento nas mãos e pés, sensação de morte iminente, falta de ar, por vezes pressão alta...
- Hm... – O médico careca e feioso murmurou enquanto, ainda sem me fitar, preenche a tão sonhada receita azul com rapidez surpreendente – Muito fácil resolver! Tome.

Recebo a receita e não entendo uma vírgula da caligrafia horrorosa.

- Tá... mas o que eu tenho, afinal?
- Pânico! Volte daqui a um mês! 

E assim, com diálogo em nível zero e como se tivesse me diagnosticado com uma gripe leve, sai cabisbaixa e confusa da sala do médico. Sem respostas, sem nenhum contato humano ou qualquer fingida tentativa de que alguém se importava.

As respostas às muitas perguntas que rondavam minha cabeça permaneciam em aberto. Voltei um mês depois, como recomendado (embora já desacreditada na receita azul da felicidade), e ainda encontrei a mãe empenada como uma porta arrastando seu filho de feições angelicais, o dependente químico de roupas malcheirosas e a vozinha rosada e simpática. Percebi então que aquelas pessoas tornariam-se minha família temporária durante muitos outros períodos de cinco horas de espera na fila que nos unia, a fila do psiquiatra, onde muitas outras histórias se somariam à minha e a família não pararia de crescer.




39 comentários:

  1. Verdade! Enquanto eu estava doente no hospital, tbm tive famílias por muito tempo!
    Conhecendo histórias parecidas e piores que a minha!
    Bjs da Su!
    www.rosachiclets.com.br

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  2. Que texto forte...mas familias temporarias encontramos nas filas da vida, sejam esperando o medico ou para comprar o pão...
    Boa sorte pra vc ....
    Beijos U&B
    Adriana
    www.unhasebocas.blogspot.com.br
    Instagram @blogunhasebocas
    https://www.facebook.com/pages/Unhasbocas/477832645611169?fref=ts

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  3. Quase um ciclo vicioso :o São histórias que se repetem e estão intrínsecas no cotidiano... Tenho pavo de filar e ainda mais de médico :33

    Haha
    xoxo

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  4. Adorei o texto! Também tive uma experiência idêntica, felizmente só estive 45m à espera da consulta!

    Bjxxx

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  5. Texto maravilhoso amei
    Novo Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=06avCiMDYGA
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/

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  6. Oi Hellz!!
    Que saudadinha dos seus textos!! *-*
    Tive muita sorte em ter minha mãe (conhecedora profunda do pânico, por já ter tido também) ao meu lado para me explicar, com exatidão de detalhes pelo o que eu estava passando.
    É muito difícil quando esse mal desperta em uma pessoa que não tem informação a respeito. Daí passa mil e uma coisas pela cabeça do sujeito, que ele está tendo um ataque cardíaco, que vai morrer, que tem alguma outra doença qualquer.. Tudo, menos que é algo somente psicológico!
    E infelizmente esse é um mal crescente, devido ao modo como vivemos, sempre ansiosos em atingir resultados no trabalho, nos estudos, na aparência. Nunca estamos satisfeitos e sempre somos julgados.
    Me pergunto como chegamos a este ponto...

    Bom, é sempre bom ler seus textos!

    Beijão :)

    www.ooutroladodaraposa.com.br

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  7. Situações como essa rendem pessoas que se tornam fiéis companheiras. Ótimo texto. Tenha um dia abençoado, beijos!

    Blog Paisagem de Janela
    paisagemdejanela.blogspot.com.br

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  8. Adorei o texto, seu blog e tudo mais parabens pelo sucesso

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  9. Gostei do texto.
    Ah, já sofri com pânico :/
    www.camilakellen.com

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  10. Nossa, 5 horas?! Caraca..
    Dá uma raiva quando espera tanto para falar coisa de 2 minutos, né?
    Fique bem! Beijos

    www.ataquedamodaa.com

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  11. Menina que texto forte, mas é assim á vida... Famílias temporárias, idas e vindas... Esperar 5 horas, ou até mesmo anos para algo ou alguem, e depois do tempo esperado, só receber meia palavra, ou meio amor e as vezes amor ou palavra nenhuma e assim por diante né. Jamais criar expectativas e hoje em dia os médicos estão assim mesmo, cru, duro e sem humanização.


    Bjuuuuuuu
    http://www.blogjumedeiros.com/

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  12. Odeio filas em médicos. Eu já fui em psicólogos, mas ele me explicou melhor, sentou com a minha família e conversou e deu dica para eles também. Ajudou bastante.

    beijos, Love is Colorful

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  13. Lovely Greets! Much kisses to you Hellz <3

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  14. Gostei muito do seu texto, sempre leve e muito gostoso de ler.
    É impressionante como filas de espera em médicos rendem reflexões. Há tantas histórias por trás daquelas pessoas.
    Outra coisa que acho pessima são médicos que mal mantém diálogos com os pacientes.
    bjs
    blogtrashrock.blogspot.com

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  15. Que texto incrível, amizades em filas é uma coisa que eu não gosto de fazer, mas adorei tanto esse texto, muito gostoso de ler e humano. <3
    http://corujasemasas.blogspot.com.br/
    Beijos.

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  16. Ficar esperando no consultório do psiquiatra sempre me deixa muito desconfortável, o pior é que a maioria dos que eu já fui tem essa mesma atitude: não dão atenção, prescrevem os remédios e nos dispensam em menos de 5 minutos.
    Beijos
    Bluebell Bee

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  17. Adorei o texto!
    Que raiva da quando os médicos mal analisam e ja acham que sabem o que vc tem!
    Isso me da uma raiva heheheh
    beijinhos, Re
    http://blogsonhosdeverao.com.br

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  18. É complicado mesmo. Mas realmente, são histórias e histórias.Boa sorte!


    Beijinhos
    n. // www.fashionjacket.com.br

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  19. nossa cara que legal sua história , amei , não sei o porque mas achei o final estranhamente cômico !

    www.nataliloure.com.br

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  20. Amei a historia ! Hellz já tentei descobrir seu insta mas poxa é impossível !
    beijos
    http://daniellaalessandra.blogspot.com.br/

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  21. Olá, Hellz.
    Achei esse nome bem interessante, de onde você tirou?
    Estou conhecendo seu blog agora, gostei bastante e estou seguindo, retribui?
    Amei o texto, realmente concebemos famílias nos momentos mais difíceis.
    Beijos,
    Borboletas de papel

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  22. Olá,
    Adorei o texto, a forma que você escreve é muito interessante e peculiar, fiquei curiosa para saber se era um texto ficcional ou mais um relato de algo presente na sua vida, ou uma mistura de ambos. De qualquer modo, muito bom.
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  23. Seu texto me tocou , me passou varias coisas na cabeça durante a leitura ,vários questionamentos ,peculiar.

    http://jessicavenenoofficial.blogspot.com.br/

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  24. Sério mesmo esse atendimento que você teve? Esse pouco caso?
    Sugiro procurar outro médico... =/

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  25. Oi Hellz, achei seu texto muito bem escrito, mas é sério mesmo 5 horas de espera? Quando vou no meu psiquiatra já acho muito que ele me faz esperar 30 min :p
    Mas isso é mesmo verdade ou só uma história, achei muito bem escrita mesmo, parece coisa de livro ^__^

    Beijinhos e boa semana!
    Maki & Vana
    http://cafezinhodasamigas.blogspot.com.br/

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  26. Você escreve com uma naturalidade impressionante... Ótimo texto, foi interessante estar nessa fila e conhecer tanta gente peculiar.

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  27. Nossa, Hellz! Não sei se to "julgando" errado, mas acho que na fila tinha mais aprendizado que no próprio consultório, né? Fiquei com vontade de conhecer a senhora, que parece uma fofa. Sabe, eu tinha o maior preconceito com psiquiatra, mas fui para curar a minha ansiedade e não me arrependo nadinha. Ele é um amor de pessoa e, como diz a minha mãe, um anjo. ♥ Acho que remédios ajudam e muito, mas as mudanças de atitudes, são essenciais. :)

    Beijocas e parabéns mais uma vez pela escrita! ^^

    Carol
    www.pequenajornalista.com

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  28. Nossa impressionada com essa história, mas o fato é que já senti isso durante um periodo em minha vida, e nem fui ao psiquiatra, fui ao cardiologista... nada a ver, mas eu sentia tanto aceleramento, tanta falta de ar, que me desesperei, queria era socorro! Inscrita aqui no seu blog. Parabéns pelas colocações, está nascendo uma escritora!

    www.assuntosdemulheres.com

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  29. Queria saber se o texto e um relato real, uma ficção ou mistura dos dois, porque 5 horas numa fila eu já tinha desistido e ido embora... hsuahsuah
    Enfim, independente de ser real ou não, o texto ficou excelente!
    Forte, reflexivo, interessante.
    E esses médicos de hoje estão bem assim mesmo.. nem olham pra você e já saem passando uma receita que a gente fica até com medo de seguir. Às vezes fazem a gente esperar horrores pra ficar 2 minutos no consultório.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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  30. Já pensou em escrever um livro? Eu fui lendo seu texto e parecia que estava lendo um livro, me diverti e me intriguei muito. Você realmente escreve muito bem e consegue prender o leitor, adorei!
    Aconteceu de verdade tudo isso? E nossa hahaha 5 horas em uma fila deve ser uma morte lenta e horrível, só me satisfaria ter levado um livro muito bom pra passar esse tempo, mas acho que logo ficaria entediada também.

    www.vodkaescarpin.com.br

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  31. Você sempre consegue fazer um jogo legal com as palavras e isso torna a leitura mais chamativa e imaginária.
    Fiquei pensando no que eu faria no seu lugar. Haha

    Beijo

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  32. Oiii,
    A fila tinha mais aprendizado haha...não só a do psiquiatra, mas de outros até do banco.
    Às vezes até no ônibus a galera senta ao seu lado e super começa a desabafar e faz a gente refletir em um monte coisa.
    E de quem a gente espera mais, acaba não vindo nada =/

    Ótimo texto.

    tenha uma ótima quinta.
    Nana - Obsession Valley

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  33. Hellz... As vezes achamos que nossa solução está em um local ou em uma pessoa, mas na verdade ela está em coisas que não vemos... Problemas psicológicos resolvem-se psicologicamente... Remédio podem até ajudar... Mas não são a solução...
    Vc eh ótima nos textos Hellz!!
    Sua cartinha saiu de sp!😊

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  34. Bom dia, Hellz. Saudade imensa daqui, desculpa!!!
    Você mudou bastante teu estilo de escrita, o que aconteceu? Tá tudo bem? (Que idiota perguntar isso depois desse texto, né, ok).
    Espero que isso seja ficção, mas se não for, espero que esteja bem, agora. ♥

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  35. Eu to com a mesma dúvida que a maioria daqui: é real? Porque céus, li do começo ao fim, ao mesmo tempo que achei graça fiquei perturbada, me lembrou um pouco da escrita do livro "Garota, Interrompida" sabe? Sei lá, meio que senti ela aí... Enfim, gostei do texto e curiosa pra saber se é ou não ficção!

    www.vestindoideias.com

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  36. adorei o post e o texto!! filas e médicos... ohh, logo duas coisas que passo bem longe eheh

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Aqui é a área do BEING YOU e você tá com a palavra, hein? BORA!